Memórias do Salto

“Não havia outra maneira de fazer uma vida melhor”

Norberto Chimeno, emigrante

 

Nos anos sessenta, em pleno regime do Estado Novo, muitas foram as pessoas que por todo o país se aventuraram a procurar uma vida melhor para lá das fronteiras de Portugal.

Mas as fronteiras estavam fechadas!

Foi necessário passar a salto, clandestinamente, longe das patrulhas da Guarda Fiscal, que muitas vezes fechava os olhos porque sabiam que aqueles homens e mulheres “iam ao destino governar a vida”.

Mas outras vezes os olhos estavam abertos…

Quando os apanhavam, chamavam a Pide; a esta polícia politica interessava sobretudo tentar apanhar os passadores, que para lhes fugir se organizavam; geralmente não acompanhavam o grupo e tinham redes que envolviam muitas outras pessoas, com tarefas bem definidas para levar o grupo até um determinado ponto.

No início dos anos sessenta era perigoso passar em Espanha; a viagem chegava a demorar mais de uma semana, sempre de noite, muitas vezes a pé, por sítios que ainda hoje os ex-emigrantes não sabem descrever.

Depois de 1967, os espanhóis facilitavam mais e as viagens começaram a demorar menos tempo e o dinheiro pago aos passadores também diminuiu.

Estes testemunhos são contados na primeira pessoa e foram alvo de uma recolha oral nos concelhos de Vinhais, Bragança, Vimioso, Miranda do Douro, Mogadouro e Macedo de Cavaleiros.

Um projeto da Associação dos Amigos do Museu do Abade de Baçal, em colaboração com o Museu do Abade de Baçal e a Faculdade de Letras do Porto que obteve cofinanciamento do Norte 2020, com o nome de “Memórias do Salto”, dá forma a esta narrativa.

Durante mais de um ano, uma equipa de investigadores percorreu este território do Nordeste Transmontano à procura de testemunhos vivos de todo o processo que envolveu a emigração, antes do 25 de abril de 1974.

Emigrantes, passadores, angariadores, guardas-fiscais, elementos da Pide, partilharam as suas memórias, que este projeto pretende salvaguardar e valorizar integrando-as no acervo do Museu do Abade de Baçal.

Com o resultado desta recolha realiza-se uma exposição a inaugurar no dia 6 de abril de 2018, no Museu do Abade de Baçal, às 21h.

A exposição recorre às novas tecnologias de comunicação para exemplificar uma passagem a salto em realidade virtual; o visitante pode vivenciar o caminho percorrendo uma passadeira, com o recurso a óculos de realidade virtual e à simulação do percurso utilizado pelos emigrantes, nas passagens a salto, guiados por um passador.

No dia 7 de abril de 2018, haverá um ciclo de conferências, que reunirá alguns dos mais representativos investigadores de Portugal, de Espanha e de França. Estas conferências irão abordar a temática da emigração numa contextualização histórica, mas pretendem também trazer a temática para o discurso atual.

No dia 8 de abril de 2018, terá lugar o ciclo de cinema dedicado à emigração.

O projeto envolveu o apoio do município de Macedo de Cavaleiros, da Associação de Municípios da Terra Fria, do Município de Melgaço, das Associações Ao Norte e Nordeste Global e as parcerias do Museu do Abade de Baçal e do CITCEM, Centro de Investigação Transdisciplinar da Universidade do Porto, que fez a supervisão da metodologia implementada.

E porque a emigração é um tema sempre atual, este projeto quer ser um contributo favorável a uma maior reflexão e humanização desta temática.

 

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